Wednesday, July 26, 2006

Uma das histórias perdidas do caderno verde

Tinha medo de falar sobre aquilo. Tinha se tornado um bloqueio para ele. A quase perda de seu irmão e melhor amigo foi algo que lhe afetou profundamente deixando grandes marcas. Eduardo não saiu de casa naquele dia. Passou um longo tempo parado, olhando pela janela e pensando no que fazer lá fora. O tempo estava feio, nublado e parecia que ia chover mas aquilo pouco importava naquele momento. Tanta coisa havia acontecido desde o acidente que ele já não lembrava de quando tinha sido. Foi depois da festa onde todos conversavam, bebiam e se divertiam. Neste momento ele pensou em como tudo pode ser passageiro na sua vida. Num momento estavam lá, felizes, em outro num corredor frio e esbranquiçado de hospital. As notícias que chegavam não eram boas e as pessoas que ele via em sua volta também não lhe animavam muito. Foi aí que ele lembrou de rezar. Fazia tempo que não rezava e por um instante ele até pensou se lembraria. Começou com uma Ave Maria e logo emendou um Pai Nosso. Na hora lhe pareceu ter trocado algumas palavras do final mas enfim, agora não importava mais. O importante tinha sido o pedido que tinha feito e a intenção de ajudar ao seu amigo. As horas passavam devagar e nenhuma notícia. Alguns parentes aguardavam e a única coisa que aquela enfermeira dizia era "Ele ainda está na cirurgia". Muito confortante! depois de algumas horas ali, começou a sentir fome e então desceu até a cantina para comer. No caminho iam dois funcionários que riam alto de alguma piada sem graça. Teve vontade de xingá-los mas se conteve. Lembrou que eles nada sabiam do que se passava com ele naquele momento. Depois de apenas engolir qualquer coisa ele voltou para aquela terrível sala de espera. Queria falar com alguém. Sua cunhada parecia muito nervosa e sua irmã continuava muda desde que chegara. Tentou se concentrar na leitura do jornal mas não conseguiu. Mas uma hora deve ter se passado e o médico então apareceu. Sua expressão não era boa. Ele parecia estar cansado e desanimado. Aproximou-se, perguntou por alguém e daí falou sobre o estado de saúde de seu irmão. Ele tinha sido forte e resistiu à todos os problemas. Teria que ficar algum tempo no hospital mas iria sobreviver. Isto foi o mais importante que Eduardo escutou. Suspirou aliviado e no mesmo instante agradeceu por ter sido atendido em sua prece. Não sabia bem porquê mas acabou lembrando que mais importante do que as palavras trocadas tinha sido a força de seu pensamento na tentativa de salvar seu melhor amigo e irmão. Sim, alguém tinha entendido seu pedido.

Para B.
Toti Paliano, February 07, 2006.